O rapaz entra no restaurante, senta-se junto à janela e deixa a mochila na cadeira. O suor lhe escorre pela testa. Inspira o ar refrigerado enquanto a música oriental preenche o ambiente. Procura o cartaz familiar ao fundo do salão, levanta-se e vai ao banheiro.
Serve o prato no buffet, senta-se e come lentamente, a música suave embalando-lhe a mastigação distraída.
No caixa, a dona mexe alguns papéis. Um menino de uns cinco anos brinca perto dela, fala sozinho em língua estrangeira e caminha para longe e perto. Por vezes, a criança pergunta algo e a mulher responde com monossílabos na língua nativa dos dois.
Ela atende um cliente, esboça um sorriso tímido e lhe dá o troco com uma leve deferência. O menino imita o gesto, sorriso aberto para o homem que sai.
Durante a sobremesa o rapaz ouve a voz estridente da criança, correndo até a porta do restaurante e de volta para junto da mãe. E então: a mulher ralha com o menino em língua raivosa, olha ao redor e lhe chuta o flanco.
A colher caída ao lado do prato, o rapaz não consegue mais engolir. Uma onda de gosto azedo sobe-lhe do estômago e o pudim fica intragável.
Enquanto ele paga sua conta, nota o menino encolhido atrás da mulher, soluçando, e ela esboça um sorriso tímido e lhe dá o troco com uma leve deferência. Ele olha fundo nos seus olhos, tentando ler amor, raiva, ou tradição. Nada, apenas o sorriso sem convicção e um obrigado tortuoso. Quer dizer algo, protestar, mas as palavras trancadas.
Sai com a mochila no ombro e de cabeça baixa.
(Conto produzido na Oficina de Criação Literária ministrada por Marcelo Spalding no UniRitter no segundo semestre de 2008.)
(Conto produzido na Oficina de Criação Literária ministrada por Marcelo Spalding no UniRitter no segundo semestre de 2008.)
2 comentários:
Tu começas com o pé direito, Vicente. (Nem acredito que escrevi isto, pois passei o dia lendo O Pai dos Burros, do H. Werneck, uma coleção de lugares-comuns). Anyway, só uma passadinha rápida para dizer que gostei muiiiiito de Agridoce, que consegui "ver" e sentir o que escreveste. Dá para transformar no roteiro de um curta. Está tudo lá. Grande beijo, amigo!
vico que lindo!!
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