Imagem da internet

Letras na Sopa

Eis que! Cá estamos eu, eu mesmo e outros eus, não bem aqui, mas assim de lado, de refúgio ou refluxo de ideias, por graça e força de muitos uns e zeros, na aparente essência de letras, acentos, pontuações e espaços num ensopado virtual.

Chego sem pedir licença nem permissão, apenas por ocasião de. E vou tentando navegar o rio de sons e imagens que corre dentro de mim, fluindo por entre tempos, brechas, sustos e sopros, numa espiral rumo a uma galáxia distante cujo centro está no meio do peito.

Obscuro? Não, apenas um arroubo poético, quase patético, para afinar o tom. Quem quiser ler, quiçá. Qui sait? Não prometo assiduidade, simpatia ou samba-no-pé. Apenas expressão de desejos literários: ler, ter, vários. A quem abrir esta página, um pedido: se gostar, comente e recomende; se não gostar, poetize.


Vicente Saldanha

domingo, 24 de janeiro de 2010

Trajetória

uma colina sossegada e uma casinha de madeira no topo uma casinha pequena e aconchegante as portas e janelas maciças e um fio de fumaça saindo pela chaminé o céu aberto umas nuvens douradas contra o sol se pondo uma horta e o trigal dançando como um lago soprado pelo vento manso (um barulho: o delegado vem na direção das grades com um molho de chaves na mão) vasto bigode queixo reto severo com uma cicatriz o padre de manhã tentando me convencer a aceitar o perdão divino acredito em Deus o que não acredito é nos homens (o delegado escolhe uma chave do molho chegou a hora) que cansaço! (ele abre a fechadura enferrujada) me levantar não tem nada no olhar dele raiva medo compaixão nada sou apenas mais um um passo à frente (ele me algema) o soldado barbudo parado na porta me olha com desprezo como se tivesse me chamando de patife nojo vontade de cuspir na cara dele qual era meu último pedido deixassem meu irmão em paz ele não tinha nada a ver com a história não sei se vão atender (abrem a porta) o sol do meio-dia forte uma carreta grande e velha o cocheiro segura as rédeas de um pangaré e me olha com ódio e temor outro soldado sentado atrás do cocheiro assustado em ver o condenado mas quer parecer que não (um empurrão e me levam até a carreta) uma bela e luxuosa carruagem reservada pra mim com uma parelha de garanhões de raça! sentar no assoalho nu da carreta nada é totalmente real talvez a realidade não passe mesmo de um sonho que a gente insiste em sonhar (o nojento também sobe e senta do lado do outro e segura a espingarda) pronto pra atirar em mim bem que ele gostaria (um safanão: a gente começa a se mover e anda devagar) um belo plano pensado em todos os detalhes o assalto do século e na última hora... aquele traidor miserável! tomara que apanhe sífilis e apodreça na cadeia! nunca desejei a morte de alguém pelo menos não até o pessoal começar a reagir e a polícia ficar no nosso encalço aí sim tive que dar cabo de uns mas não que gostasse mas ele merece como o soldado é moço! um rapazinho de rosto imberbe transparente quer mostrar segurança mas no fundo tá se borrando de medo na certa é o seu primeiro enforcamento não sabe o que é meter uma bala nos cornos de um infeliz ainda não sentiu cheiro de sangue ainda não sentiu a morte quando a gente mata pela primeira vez se sente a morte tão perto da gente quanto da pessoa que a gente tá matando aposto que se eu saltasse e desse o fora ele ainda hesitava em apertar o gatilho mas tem o outro o verme me encarando com aquele meio-sorriso debochado espere só que um dia você ainda leva um tiro no ouvido vou me virar de satisfação no túmulo sujeitos como você deviam ser afogados ao nascer as pessoas todas curiosas na rua mais que isso satisfeitas claro pra vocês é fácil bons cidadãos respeitadores da lei da ordem da moral e dos bons costumes palavras bonitas e fáceis quando se tem tudo enquanto isso meu pai bebia e batia em nós minha mãe doente minhas irmãs caíam na vida e meus irmãos arrumavam briga que queriam que eu fizesse? ninguém é bandido por vocação e agora vocês aí contentes por mais um que vai pagar pelos seus crimes voltar ao pó onde foi que ouvi isso? pó tudo não passa disso nem mesmo essa cidade perdida no meio do nada as casas de tijolo pó a rua que vai ficando pra trás pó o céu limpo umas nuvens passam rápido não querem ver a sentença vontade de sair voando passar por cima das cabeças de todo mundo e gritar Eu sou livre! Não sou um ladrão e asssassino miserável! Também tenho sentimentos e sonhos sair voando e encontrar Angela levar ela para bem longe pra outro país Mas não falam a nossa língua! tanto melhor se ninguém se entendesse era a maior confusão e era mais fácil pros ladrões ninguém percebia o que eles tavam fazendo e eles não precisavam matar ninguém (dobrando uma esquina) ali adiante a praça já cheia de gente no centro o Altar onde vai se realizar o espetáculo se pelo menos meus colegas aparecessem... a Forca forca a palavra não soa mais tão pesada também é só no que penso desde a prisão pensando bem sempre soube que meu destino era a forca se não morressse de tiro antes mas nunca pensei em quando ia ser a morte nunca é pra gente como será a morte? que vontade de ver Angela saber como ela tá não, é melhor que fique com os outros é mais seguro Angela às vezes eu não entendia você se preocupando com o que eu comia bem na hora de ir pra ação ou então cuidando de um ferimento de faca ou de bala me tirando a camisa com cuidado fazendo curativo sem perguntar nada só como eu tava você bem que queria dizer pra eu largar essa vida arranjar um emprego mas não tinha coragem de falar nada disso só me dizia com seu olhar e quando eu tava de tocaia ou no meio de um tiroteio às vezes via você angustiada me esperando e ansiava pra que aquilo tudo acabasse logo só pra estar junto de você de novo e me sentia poderoso mais forte até minha pontaria melhorava mas quando um tiro passava zunindo ou me pegava de raspão eu sabia que podia ficar ali mesmo estatelado feito um cachorro com a língua de fora e você sozinha me esperando ia sofrer mas pelo menos a angústia ia passar agora nada mais me atinge tô além disto tudo subir no palanque sou o centro das atenções todos esses olhares acusadores (o soldado solta as algemas e amarra as minhas mãos) o juiz vai proferir a sentença culpado... assasinato... enforcamento... o padre vai falar (encomenda meu corpo num latim surrado) até eu era capaz de falar latim melhor do que isso obrigado mas já sei pra onde eu vou é a vez do carrasco quase não tinha notado ele antes sujeito grande e musculoso os olhos dentro da carapuça os olhos tão vivos a respiração pesada você tá vivo! é um homem como eu! (enfia uma carapuça na minha cabeça) tudo escuro talvez a morte seja assim Escuridão Silêncio Frio talvez, logo vou saber (o laço se ajusta no meu pescoço) meu corpo teso o grande momento o exato instante em que tudo acaba o que foi isso? tiros! (longe mais perto mais perto) cavalos e gritos meu nome! tiros daqui também (vozes gritando de um lado pro outro) tenho que sair daqui tenho que sair! desamarrar as mãos rojões espocando o vozerio daqui um pouco vou tá livre Angela... se eu me safar dessa vou levar você pra bem longe e a gente vai começar uma vida pacata e honesta na casinha no alto da colina tiro de tudo que é lado preciso me soltar! o nó muito apertado Ai!! (clarão) será que me ouviram? que dor! (fogo no rim) uma bala... meu deus fui atingido não foi nada eu preciso sair daqui assaltar o banco ratos na cela não comi o café da manhã soltar as mãos (minha roupa úmida) tô sangrando?! o sorriso cínico o soldadinho com medo meu pai me batendo com o cinto minha mãe definhando na cama Angela Você tem que comer mais... Angela me beijando o seu corpo macio me envolvendo e me engolindo que dor! quebrar a vidraça da igreja o padre fazendo o sinal da cruz o cristo crucificado aumentando de tamanho e me agarrando com garras de águia e um ar feroz preciso me livrar das cordas calma eles tão aí onde tão eles não ouço nada sair daqui (dor ardendo) que sede! o revólver na cara do guarda a polícia chegando atravessar o rio de noite preciso soltar as mãos água... preciso de água tenho que sair daqui tenho que sair (um tambor gigante e lento bum  bo    bum     bo      bum       bo   o corpo pesado eu ficando longe... longe) tenho que... tenho que... (aperto na garganta sufocando) não tem ar! o tambor em disparada então galope de cavalo e barulho de água correndo e sou virado do avesso e tudo um silêncio enorme um vácuo preto virando verde e verde virando violeta e violeta se transformando em dourado e dourado se dissipando em branco e branco absoluto e infinito



1985 / 1995 / 2010

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