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Letras na Sopa

Eis que! Cá estamos eu, eu mesmo e outros eus, não bem aqui, mas assim de lado, de refúgio ou refluxo de ideias, por graça e força de muitos uns e zeros, na aparente essência de letras, acentos, pontuações e espaços num ensopado virtual.

Chego sem pedir licença nem permissão, apenas por ocasião de. E vou tentando navegar o rio de sons e imagens que corre dentro de mim, fluindo por entre tempos, brechas, sustos e sopros, numa espiral rumo a uma galáxia distante cujo centro está no meio do peito.

Obscuro? Não, apenas um arroubo poético, quase patético, para afinar o tom. Quem quiser ler, quiçá. Qui sait? Não prometo assiduidade, simpatia ou samba-no-pé. Apenas expressão de desejos literários: ler, ter, vários. A quem abrir esta página, um pedido: se gostar, comente e recomende; se não gostar, poetize.


Vicente Saldanha

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

o fim do mundo

O mundo acabou numa quarta-feira, às três e dezessete da tarde, hora local. A ocasião perfeita, pois ninguém esperava. Ao contrário das previsões milenares, o Apocalipse não se deu com espalhafatosos shows pirotécnicos de raios e trovões, ou tonitroante soar de trombetas. Tampouco houve sonhos agourentos de videntes. Os astrólogos nada viram nos astros que pudesse antever o Fim das Eras. Para os astrônomos em seus observatórios, nada havia nos mapas estelares que acusasse algum fenômeno em andamento. Nem mesmo as Bolsas de Valores tiveram movimentos extraordinários que fizessem suspeitar alguma mudança mundial iminente. Não houve prenúncios. O único sinal visível foi uma leve agitação dos animais no zoológico, momentos antes.

O Fim foi rápido e definitivo. Súbito, o Sol expandiu-se num clarão que tomou conta do céu, como se engolfasse a Terra. Envoltos na luz cegante, ninguém pôde abrir os olhos que não tivesse as retinas queimadas. Numa fração de segundo a temperatura subiu muito. Em toda a face iluminada da Terra, quem estava desabrigado nas ruas sofreu queimaduras. Quem estava ao sol em praias tropicais foi carbonizado instantaneamente. A superfície dos mares entrou em ebulição. Florestas inteiras incendiaram-se. Objetos e casas prenderam fogo espontaneamente. Mas as pessoas mal tiveram tempo de gritar, apavoradas. Alguns segundos depois, a Luz se arrefeceu, diminuindo aos poucos. Porém o Sol não voltou ao normal: continuou enconlhendo-se gradualmente; em seu lugar, surgia pouco a pouco no horizonte uma noite crescente, pontilhada de estrelas. E o Sol foi ficando cada vez menor, como se de fato diminuísse de tamanho ou se distanciasse — que diferença? —, até tornar-se ele mesmo uma entre as incontáveis pequeninas estrelas no céu. E o que minutos antes fora uma tarde ensolarada, era agora uma vasta noite repleta de estrelas. Os que se aventuraram a olhar para o Sol moribundo, juraram vê-lo diminuir até ficar minúsculo e por fim apagar-se. E nesses poucos minutos, nem um ruído veio do céu. Por toda a parte onde fora dia, milhões de explosões, devido ao calor repentino: refinarias de petróleo, usinas nucleares, fábricas, edifícios, explosões e incêndios numa colossal reação em cadeia. Porém no céu, nem um trovão. O Sol explodiu e desapareceu sem ruído: o mundo acabou em silêncio e solidão.

A estupefação e o pasmo foram tais que levou tempo até que alguém conseguisse pronunciar a primeira frase:

- É o fim do mundo...

A essa altura, os cegos, os queimados e os desabrigados já gritavam em desespero e dor. Muitas pessoas não recobraram a consciência: permaneceram catatônicas na posição em que estavam quando a coisa aconteceu. Outras, passado o susto inicial, tentavam convencer-se de que se tratava apenas de um fenômeno metereológico estranho, algum eclipse inusitado. Outras ainda, não fosse a pele chamuscada, jurariam estar sonhando. Houve quem não pensasse nada, apenas tentasse socorrer das chamas algum parente ou conhecido. Até que a implacável constatação desceu às mentes, com um calafrio gelado na espinha: o sol tinha desaparecido.

- Meu Deus, o Sol se apagou: é o fim do mundo!

A frase espalhou-se entre as pessoas com a mesma velocidade das chamas. Em pouco tempo, multidões gritavam desesperadas e corriam em desatino pelas ruas das cidades. Sem rumo: para onde quer que fossem, tudo era uma noite imensa e inexorável.

Quem tinha alguma crença ou fé só conseguia se perguntar: “Por quê? Por quê?!” Mesmo os crentes mais fervorosos não conseguiam admitir que tivesse chegado o Momento. Os cristãos e os muçulmanos sentiram pânico pelo inesperado Apocalipse, e desesperada frustração por não terem sido arrebatados. Os ateus finalmente acreditaram em Deus, e lamentaram não se terem arrependido antes.

E então, como se os medos recônditos de cada um saíssem de suas entranhas e viessem à tona, começou a esfriar. O primeiro sinal foi um arrepio — a brisa? pânico? — um arrepio como o que se sente num entardecer de outono — onde era verão. E logo o arrepio tornou-se frio constante. E grossas nuvens começaram a cobrir o céu noturno, e com elas ventos gelados começaram a soprar. Em todos os continentes, chuvas de águas gélidas despencaram do céu coberto. Flocos de neve começaram a cair, e atrás deles mais flocos, e outros mais, e em breve eram tempestades de neve — nas montanhas, nas florestas, nos desertos. O chão cobria-se de um branco silencioso e feroz que não se distinguia na escuridão. A água dos oceanos foi-se tornando em gelo. A Noite Eterna, mortal e desoladora, abateu-se sobre a Terra.

O pesadelo era terrível demais. Não havia como escapar à Noite, nem como abrigar-se dela. Logo não havia mais energia para comunicação ou aquecimento. Quem ligasse o rádio em busca de esperança, só ouvia estática. A água começou a faltar nas torneiras.

Quanto tempo se passou? Dias? Meses? Impossível dizer: os calendários perderam o sentido de ser. Os que não morreram queimados no começo nem tiveram coragem de tirar a própria vida, viram a Eternidade, e perderam a razão. Perderam os escrúpulos, passaram a roubar, matar, tornaram-se canibais, e por fim morreram de fome e frio. A maravilha da criação, obra-prima da natureza, detentor e guardião da inteligência e da cultura, o pequeno e frágil ser humano teve seu fim em dor e desalento, esquecido pelas Alturas e tragado pela noite negra, fria e infinita. Também pereceu toda forma de vida: os animais e as plantas, dos microscópicos aos gigantescos, morreram todos, primeiro pelo fogo, depois pelo frio.

E a Terra, sem astro guia, ficou vagando sem rumo e sem vida pelo espaço sem fim.

Um comentário:

Andréia disse...

Nossa! eu quase acreditei. só não acreditei de verdade porque se alguem relatou é porque ainda há sobreviventes: quem escreveu e eu, que leio e assusto-me. O fim do mundo deve ser mesmo assim.